Seu nome está diretamente ligado aos rodeios e sua paixão pelo Tambor

Com Rubi Clue, Pri Aguiar marcou época. Um dos conjuntos mais queridos das arenas de rodeio do Brasil

 

Quem pensa em ter uma carreira promissora dentro dos rodeios, certamente por espelhar-se em Priscila Aguiar Palermo, 34 anos. Nascida na capital paulista, o campo sempre foi uma de suas paixões. Nos rodeios, ela carregou o nome de São Pedro/SP, mas hoje mora em Bullard, Texas, com o marido, o bullrider Robson Palermo, e os filhos Gabby, de oito anos, Mateus, seis anos, e o caçula Lucas, de dois anos. Formada em Agronomia, pela UNESP – Jaboticabal, com Mestrado em Agronegócios, na Texas A&M University, em College Station/TX, ela trabalha desde 2008 para a Kiepersol Winery, melhor vinícola do Texas esse ano, que produz vinho e também é uma destilaria que produz Bourbon, Vodka e Rum.

 

O rodeio faz parte de sua vida desde que começou a praticar os Três Tambores. E vamos combinar, não é todo mundo que tem a honra de ser pedida em casamento e ficar noiva no Rodeio de Barretos, né? Foi em 2005, quando ela saiu da arena campeã nacional pela Associação Nacional de Três Tambores. Seu namorado na época, também tinha sido campeão do rodeio internacional de Barretos. Morando fora do Brasil por mais de dez anos, sua história se funde com uma época importante do rodeio no Brasil.

 

Aos sete anos de idade, Pricila começou a ter contato com cavalos. Sua bisavó tinha uma casa em São Pedro e a família ia todos os finais de semana e férias. Como a cidade é uma estância turística, a diversão era em um dos pontos turísticos, o Rancho Kajuba, que existe até hoje. Ela, seus pais e irmão faziam parte de um grupo grande que participava de trilhas e passeios a cavalo. Foram cinco anos na rotina de ir todo final de tarde de sexta-feira até domingo, passear horas e fio e curtir os cavalos

 

Aos 11 anos Priscila conheceu os Três Tambores. Foi em São Pedro, quando a amiga Claudia Gomes, do grupo das cavalgadas, montou o Haras Vila Rica, com passeios, alojamento de cavalos e provas. Com a mestiça Coca-Cola ela começou a fazer provinhas por lá, sempre com essa turma de amigos, também fazia Baliza, participava os cursos de férias. E assim começou e ela foi gostando cada vez mais. O local está em atividade até hoje, com o nome de Rancho São Francisco, do Ju Bertato, com estrutura diferenciada, pista coberta. Outra companheira de provas era a égua Princesa. Seu irmão André montava uma égua Paint chamada Chalana e eles se divertiam muito.

 

Dos 11 aos 15 anos a rotina dela era estudar na capital, fazer outras atividades extra-curriculares, e passar os finais de semana no interior, com os cavalos e provas. O primeiro treinador foi Paulo Cavalheiro , que deixava a égua no ponto para que Priscila fosse nas competições nos finais de semana. Com 15 anos, decidiu que queria mudar para São Pedro de vez. “Eu e meu irmão não gostávamos de morar em São Paulo e acabamos convencendo nossos pais a nos deixar morar na casa que tínhamos em São Pedro.  Tínhamos pessoas que trabalhavam para a família e cuidavam da gente. Íamos para escola e aos treinos durante a semana, depois que minha mãe deixava tudo organizado no final de semana, nossa comida e os orientações para a caseira”, lembra.

 

Os treinos, aos 16 anos, passaram a ser em Lençóis Paulista, na região de Bauru. Com seu interesse cada vez maior pelos rodeios e provas, comprou, em março de 1999, a Rubi Clue, que chegou a ser sua grande parceira e responsável por todas as suas grandes conquistas. Não era possível ver uma sem a outra. “Me dei bem com ela logo de cara e, mesmo sendo longe de casa, decidimos mantê-la treinado com o Marcos e o Marquinhos Toledo em Lençóis, e eu ia duas vezes por semana treinar e nos finais de semana rodeios.

 

Foi com a Rubi que ela ganhou os maiores prêmios da carreira como competidora. Sempre ia bem nas provas, mas faltava um cavalo que se destacasse e a Rubi proporcionou tudo. Elas começaram a seguir o campeonato da Federação Nacional do Rodeio Completo, o maior e mais lembrado campeonato de rodeio completo do Brasil. Acompanhava as etapas em diversas cidades, Jaguariúna, Americana, Barretos, Goiânia, Presidente Prudente. Primeiro rodeio com a Rubi, o JRF, ela ficou em segundo lugar, marcando o menor tempo da arena na final, uma boa surpresa para todos. No mesmo ano foi campeã de Barretos. Também lembra do bicampeonato em Americana, provas pela ABQM, Nacional e Congresso, campeã ANTT. “Tudo que conquistei foi graças a Rubi”.

 

Em 2001, 2002,  a FNRC estava acabando. Quem participava dos rodeios nessa época lembra muito dessa fase. O que era pra ser promissor, não evoluiu. Até uma greve em Barretos aconteceu. Depois a Copa Unioil tentou levar um campeonato de rodeio completo também e acabou em dois anos, mais ou menos. Foi ai que Priscila, em conversa com Paula Camargo, que também competia, teve a ideia de montar uma associação. “A gente viu que os interesses do pessoal que organizava os rodeios não estavam alinhados e focados nos Três Tambores, o que eles davam para a prova não era suficiente, não olhavam  nada do lado das competidoras. Obstáculos que temos até hoje, mas que já é anos-luz melhor do que era em 2001, por exemplo”.

 

Então lá foram, Pri, Paula e Isabel Dias, em busca de reconhecimento para a modalidade, mostrando que não existiam maus tratos aos animais nas provas. E se iam montar uma associação para defender o esporte, porque não formatar um campeonato? E foi assim que a ANTT nasceu. Elas começaram a se reunir com os organizadores e pedir segurança e pistas adequadas e ainda camping com luz, água e alojamento para os cavalos.  Além de Priscila, Paula e Isabel, completaram a primeira diretoria da ANTT Simone Zamora, Tamara Julio, Silvana Bertato, Giovanna Balbo, Daiane Sudário, Valéria Antunes, Aline Lima.

 

“Foi muito difícil para a ANTT mudar a visão que os organizadores de rodeio tinham da prova dos Três Tambores. A gente batalhou para mostrar o nosso ponto de vista e o porque a gente pedia as coisas daquele jeito, porque tinha que ter pista segura, camping e etc. E o primeiro a acreditar na gente foi o Rodeio de Colorado, que até hoje é parceiro da ANTT. Depois que fechamos etapa lá, depois que vimos que alguém abraçou a nossa causa, seguimos em frente com mais firmeza”. E todo mundo colocou a mão na massa. Não só as meninas da diretoria, mas a família delas também, ajudando a montar pista, com enxada na mão e tudo.

 

E quando as outras meninas viram que todo mundo fazia de tudo, simpatizaram com a causa e isso uniu muito as competidoras de uma forma geral. “Acho que toda nós, que lançamos o campeonato lá atrás, não imaginamos nunca que a ANTT ia ser capaz de dar um carro pra a campeã.” O prêmio era um dos objetivos, mas o principal era ter pista e camping adequados. “A premiação nem estava no topo da lista, mas hoje vemos como é importante ter chegado a esse patamar. Hoje vemos que a ANTT conseguiu pista, camping e muito além, e ainda fez o esporte ser mais viável economicamente para as competidoras”.

 

Até que em 2006, Priscila tomou a decisão de mudar para os Estados Unidos. Ficou noiva do Robson e ele estava indo montar nos rodeios da PBR americana. Formada em Agronomia, ela fez as malas para começar uma nova vida. Foi aceita para o mestrado na Universidade do Texas e passou a cursar Agronegócio. Enfrentaram todas as dificuldades de um começo de vida a dois e ainda longe da família e dos costumes. Deixaram vidas solidificadas nas suas atividades no rodeio para começar do zero. E como não sabiam ainda como ia ser, pensando em focar no mestrado, Priscila largou os Três Tambores. Mas uma coisa ela tinha certeza: um dia ia voltar para as pistas.

 

“Senti muita falta das provas. Por quase um ano não conseguia nem ler as notícias, pois ficava triste. Sabia que tinha que estar onde eu estava, mas me machucava ficar vendo, então me afastei um pouco, até sai da diretoria da ANTT, porque sentia muita saudade. Foi minha vida por oito anos e deixar tudo para trás doeu no começo. Depois que passou essa fase, voltei para a diretoria da ANTT, a me envolver novamente, e estou até hoje, um dos meus maiores orgulhos. A minha filha Gabby é uma grande fã da ANTT. Sempre que vai nas provas aqui quer usar uma pólo que eu tenho. Um dia eu e ela ainda vamos correr a ANTT juntas.”

 

Dos três filhos, a Gabby é a que mais segue os passos da mãe. Ela começou a montar com três para quatro anos, com a égua Xuxa. Foi Gabby que ensinou Xuxa a fazer o percurso e as duas formaram uma dupla e tanto. Inseparáveis e apaixonadas uma pela outra. Xuxa faleceu no começo desse ano, o que ainda deixa a pequena muito triste. Aos poucos, ela vem formando conjunto com outro cavalo e continua indo às provas. O Mateus também pratica Três Tambores, montado no Roxão, mas não é tão fissurado como a irmã. Ele tem cara de que vai seguir os passos do pai na montaria em touros, hein! O caçula ainda não monta, mas é um dos companheiros da mãe nos treinos sempre.

 

Quando consegue, ela vai as provas, voltou a competir. Com três filhos, trabalho e os rodeios do Robson, ela conta que a rotina dificulta. “Ainda não sou corajosa suficiente para  pegar um trailer com três cavalos, três crianças e viajar para prova, só vou quando o Robson está comigo. Mas amo muito montar, quando estou cansada, treinar é o que me desestressa. Moro em um rancho aqui no Texas, então quando sobre um tempo, arreio o meu cavalo e vou treinar”.

 

Usando sua experiência de anos envolvida com o esporte, mesmo afastada do Brasil há mais de dez anos, Priscila faz um comparativo entre os dois países e ressalta dois pontos. Um deles, é que nos Estados Unidos, em qualquer prova, seja um Jackpot menor ou um rodeio grande, sempre terá cavalo famosos, com linhagem top, preparados para provas importantes, grandes treinadores. O nível é muito alto ela comenta, seja onde for, de provas menores a maiores. “Imagino que no Brasil seja igual, mas o número de cavalos é gigante aqui, então o nível de competição é bastante alto. Mesmo em provinha que não tem premiação, que é rateio, os grandes estão sempre lá”.

 

Ela comenta também, que nos Estados Unidos, as competidoras não tem funcionários para ajudá-las. “Aqui não temos treinador, tratador, motorista. As competidoras tem que ser multifunção, é a cultura daqui. Elas mesmo que cuidam do rancho, dos cavalos, do treinamento, vão as provas sozinhas, cuidam de tudo sozinha, e ainda competem. No Brasil muitas meninas hoje já treinam os próprios cavalos e isso é muito legal, pois as torna melhores competidoras e cavaleiras. A conexão com o seu cavalo é muito maior. Na minha época eu era apenas a pilota (risos) e tendo que fazer tudo aqui, me sinto mais cavaleira, mais conectada com meu cavalo, melhor preparada.”

 

Para encerrar essa história linda, fica a grande lição dessa que é uma das competidoras ícones dos Três Tambores no rodeio brasileiro, muito querida, e que a gente espera voltar a ver em breve nas arenas brasileiras, acompanhada de sua filha e toda sua família!

 

Por Luciana Omena

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